Arminianos Cearenses

Arminianos Cearenses

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Observações do professor Paulo Cesar Antunes sobre a fala de Marcos Granconato no programa Vejam Só.



1) Por volta de 10:30, o Marcos Granconato faz uma grande confusão entre fé, graça, gratuidade e incondicionalidade.
Ele acredita que, sendo pela fé (prevista), a eleição se torna uma "retribuição disfarçada", "merecida", e anularia a graça. Portanto, a eleição precisa ser incondicional.
Sobre o primeiro ponto, as Escrituras são enfáticas: "é pela fé, para que seja segundo a graça", Rm 4.16. Obviamente poderia ser discutido como a fé acontece, mas o simples fato de ser pela fé não anula a graça.
Sobre o segundo ponto, gratuidade e incondicionalidade não são sinônimos. Algo pode ser gratuito e condicional. Um versículo que eu sempre cito para provar este ponto é Ap 22.17: "E o Espírito e a esposa dizem: Vem. E quem ouve, diga: Vem. E quem tem sede, venha; e quem quiser, tome de graça da água da vida." A água da vida é "de graça", mas você precisa ir tomá-la. Embora gratuita, ela é condicional.
2) Em 13:28, o Granconato diz que a afirmação da Eleição Incondicional torna o crente mais humilde.
Em primeiro lugar, a prática não confirma a teoria. A soberba entre inúmeros calvinistas é denunciada não somente por pessoas de fora, mas de dentro também.
Em segundo lugar, temos um fato histórico. A nação de Israel acreditava em sua eleição incondicional, e ainda assim se vangloriava de seu status diante dos gentios.
Em terceiro lugar, mesmo se a afirmação fosse verdadeira, ela não provaria nada. Diversas religiões conseguem efeitos semelhantes. Tenho amigos espíritas muito mais abnegados do que eu.
Em quarto lugar, o efeito "tornar-se mais humilde" seria resultado da graça de Deus no crente e não da afirmação de qualquer doutrina. No máximo, uma doutrina poderia servir de meio. Mas nessa hipótese, qualquer outra doutrina poderia servir ao mesmo propósito, já que o que realmente importa é uma obra interior do Espírito no crente levando-o à humildade.
3) Em 27:40, o Granconato diz, a respeito de Hb 12.2 ("autor e consumador da fé") que há a ideia de "princípio e fim" no texto e que a interpretação do Carlos não foi "honesta".
Mas se alguém observou bem, o Carlos manteve a ideia de "princípio e fim" no texto. Ele diz que "autor" significa "líder, pioneiro, fundador" e "consumador" significa "aperfeiçoador". Ou seja, a ideia de "princípio e fim" está presente no texto, e o que não foi honesta foi a acusação do Granconato.
Quanto ao verdadeiro significado do texto, o Vailatti está corretíssimo. A ideia é de "pioneiro" e "aperfeiçoador" mesmo. Basta observar o contexto.
4) A partir de 32.42, o Granconato se utiliza de um artifício muito comum no meio teológico, de acusar um oponente de enfrentar o mesmo problema ao invés de tentar respondê-lo. Sobre a acusação do Carlos de que o Calvinismo torna Deus o autor do mal e do pecado, o Granconato diz que isso não é um "problema calvinista" e acrescenta que "é um problema de qualquer pessoa que crê na Bíblia, sendo calvinista ou arminiano.
É um problema de qualquer pessoa que crê na Bíblia uma ova. A ideia da presciência divina não coloca o arminiano no mesmo barco que o calvinista. No Calvinismo, o decreto é incondicional. No Arminianismo, Deus levou em consideração as escolhas das criaturas. Se ambos têm um problema aqui, ele certamente não é o mesmo, como diz o Granconato.
É justamente o fato do decreto ser incondicional (ou seja, em nada dependeu de suas criaturas) que coloca o Calvinismo sob ataque. Nessa hipótese, o mal seria obra de Deus tanto quanto o bem. Esse é um problema que o Arminianismo definitivamente não tem.
Se Deus previu o pecado do homem e não o impediu, isso não faz de Deus o autor do mal e do pecado. Ele não tinha a obrigação de impedir e a criatura, e não Deus, foi a responsável pela sua escolha.
5) Em 33:58, o Granconato, falando da Queda de um ponto de vista arminiano, diz que "Deus criou todas as condições para que aquilo (o pecado) acontecesse".
Isso não é verdadeiro de um ponto de vista arminiano. Deus não criou as condições para que (com a intenção de que) o pecado acontecesse. Ele certamente sabia que iria acontecer, mas este não é o seu propósito principal. O propósito é, como ele também diz um pouco antes, colocar o casal à prova. O pecado surge como consequência disso.
6) Em 34:30, o Granconato diz que o problema do mal é resolvido se negarmos a presciência, "que é o que está fazendo atualmente, SE NÃO ME ENGANO, é um tal de Roger Olson, que é o grande papa do Arminianismo moderno. Ele está começando a entrar na linha do teísmo aberto."
Aqui não precisa dizer muito. Basta dizer que as suspeitas do Granconato de estar enganado se cumpriram. Ele está enganado. Olson não nega a presciência e não está entrando na linha do teísmo aberto.
7) Anteriormente o Granconato havia criticado o Carlos por não citar um texto por completo, mas sobre 2 Tm 2.11, o Granconato faz exatamente isso, não cita um texto por completo. Ele convenientemente interrompe na parte a do v. 12.
2 Ts 2.11 E por isso Deus lhes enviará a operação do erro, para que creiam a mentira;
2 Ts 2:12 Para que sejam julgados <<todos os que não creram a verdade, antes tiveram prazer na iniquidade >>.
A parte destacada é completamente ignorada pelo Granconato, mas é essa parte que dá sentido ao texto que ele cita. Deus quer que os ímpios creiam na mentira, mas essa vontade é consequente à atitude dos próprios ímpios de rejeitarem a verdade. Antecedentemente Deus não quer que ninguém creia em mentiras.
8) O Granconato fala que "o que não podemos fazer é pegar algumas partes da Bíblia e dizer, 'não, isso aqui eu vou alterar isso aqui para não dizer isso'... 'aqui quando fala que ele fez vasos para ira, não é bem isso, ele não fez não'..."
O Granconato está correto em dizer que não podemos rejeitar as partes das Escrituras que não nos agradam ou não se encaixam ao nosso entendimento finito. No entanto, quem nesse debate nega que Deus fez "vasos para ira"? Ele fez. Agora, o que está em jogo é o que isso significa.
O Granconato abre mão de ir mais fundo no texto, na busca de coerência, sob o pretexto de que nosso entendimento é finito, mas esse é um argumento auto-destrutivo. Explico.
O texto de Romanos não diz escancaradamente que Deus rejeitou incondicionalmente algumas pessoas em particular para que elas fossem para o inferno. Diz que Deus fez vasos para ira. Volto a dizer, o que interessa é o que isso significa. O Granconato interpreta o texto da maneira calvinista. Mas o que ele usa para interpretar? O seu entendimento humano finito. Com seu entendimento humano finito, ele interpreta que o texto afirma a doutrina da reprovação.
9) Estou vendo alguns calvinistas comentarem em suas páginas que o Carlos afirmou que a Bíblia contém erros. Inclusive esta foi uma conclusão do Granconato, ainda que o Carlos mesmo tenha negado. Este trecho está mais ou menos no minuto 47.
A acusação surge após uma explicação (correta, mas dita de uma forma que poderia e foi mal interpretada) dada pelo Carlos da razão de tudo ser atribuído a Deus no Antigo Testamento, até mesmo o mal. Como não havia um desenvolvimento teológico a respeito dos agentes (o diabo e seus anjos, por exemplo) que também atuam no universo criado por Deus, tudo era atribuído a Deus, até porque, de uma forma ou de outra, tudo está sob o seu controle, mesmo quando algo é feito por intermédio de outro. Os casos de Jó e Davi (a respeito do censo que ele levantou) são clássicos. Ainda que aqueles males tenham sido provocados pelo diabo, eles são atribuídos a Deus.
O Carlos foi perfeito nessa colocação. É o que eu penso também. No entanto, faltou clareza ou, quem sabe, uma explicação melhor, que não desse margem para dúvidas.
Enfim, a acusação do Granconato e dos calvinistas é injusta. O Carlos não afirmou que a Bíblia contém erros. Esses poderiam dar ao Carlos pelo menos o benefício da dúvida ao invés de tirarem uma conclusão com tamanha falta de caridade.
Eu, semelhantemente, poderia dizer que o Granconato fez exatamente o mesmo. Ele afirmou que a Bíblia contém erros. Em 50.20, ele comenta sobre como deve ser o comportamento de um "teólogo honesto":
" 'Tenho aqui dois textos que eles se anulam. Com qual deles eu fico?' O teólogo honesto, academicamente, vai dizer 'eu vou ficar com os dois'. "
Ora, se há dois textos que se anulam, então ele está admitindo que há contradições nas Escrituras. Isso não é diferente de dizer que há erros nas Escrituras, como, segundo o Granconato, o Carlos afirmou.
Mas eu estou dizendo tudo isso apenas para afirmar que nenhum dos dois quis afirmar que a Bíblia contém erros, muito embora, numa interpretação superficial, essa conclusão pode ser tirada.
Agora uma pausa para um pouco de humor, para quebrar a seriedade dos comentários.
Em 58.22, o Granconato diz,
"Mundo aqui significam as pessoas espalhadas pelo mundo afora. Esse é o sentido do mundo e é assim que eu entendo. Uma conexão direta com eleitos? Mas depois de algumas cambalhotinhas, a gente chega lá."
Cambalhotinhas? Depois o calvinista reclama quando a gente diz que ele faz malabarismo exegético.
10) Agora temos uma declaração de um calvinista admitindo o Voluntarismo. O Granconato faz isso em 1.10.50. Os calvinistas costumam negar que sejam voluntaristas.
Bem, devo dizer que o Granconato define Voluntarismo de uma forma equivocada (ele diz mais do que a teoria ensina), e cita exemplos inadequados para apoiar essa teoria, mas a admissão chega a ser surpreendente.
11) Em 1.13.23, o Granconato nos presenteia com uma ótima oportunidade de darmos boas risadas. Ele diz que em Romanos 9 "Paulo está discutindo com um arminiano".
E eu sempre pensei que Paulo, em Romanos 9, estava discutindo com um judeu, que apoiava sua salvação na descendência natural de Abraão e fidelidade à aliança mediante a manutenção das obras da lei. Mas o mais engraçado ainda está por vir.
12) O Granconato, segundo me pareceu, não conseguiu esconder um certo descontrole no final, mostrando-se desesperado para vencer o debate no grito, especialmente porque ele seria o último a falar e não haveria tempo de resposta para as suas bravatas. Enquanto o Eber tenta encerrar o programa, o Granconato tenta abafá-lo, dizendo, "Romanos 9 é a kryptonita do Arminianismo. Romanos 9 é a kryptonita do Arminianismo. Acaba com o Arminianismo."
Bem, encerro por aqui. Também tenho críticas a fazer ao pr. Carlos, mas elas se resumem a não ter explicado melhor suas crenças. No geral, ele se comportou com profundo respeito e larga sabedoria. Com exceção de Fp 1.29, eu concordo com todas as suas interpretações bíblicas.
O Granconato também demonstrou respeito e sabedoria, embora tenha tropeçado nesses pontos diversas vezes. O seu desfecho, "gritando" as palavras que eu citei acima, foi lamentável, inconveniente e infantil.

http://www.arminianismo.com/

Nenhum comentário:

Postar um comentário