Arminianos Cearenses

Arminianos Cearenses

quinta-feira, 28 de maio de 2015

COMENTÁRIOS DE ZWINGLIO RODRIGUES SOBRE O ARTIGO DE FRANKLIN FERREIRA





<<Sobre o começo>>

O escritor batista Franklin Ferreira postou alguns comentários em sua página do facebook fazendo referência ao texto Em Defesa do Arminianismo, publicado na Revista Obreiro Aprovado, ano 36, nº 68, escrito pelo também escritor, nesse caso assembleiano, Silas Daniel. Li o artigo de Silas Daniel e o achei muito bom. O articulista representou bem o arminianismo clássico. Não vou entrar no mérito da “disputa”, mas, digamos, em meu próprio nome, visto que sou um arminiano clássico exaurido por ler e ouvir tantas inverdades e meias verdades sobre o arminianismo clássico, depois dos comentários de Ferreira ao texto de Daniel, passo a escrever algumas linhas comentando o que disse Ferreira e oferecendo algumas respostas. Tratarei apenas sobre o que achar necessário para o momento. Esse será meu empreendimento aqui. Antes, devo informar que o texto seguinte é informal, ou seja, não tem pretensão alguma de ser acadêmico. Tanto é que não cito as fontes donde retirei alguns excertos. Caso seja solicitado a apresentar as fontes, os anos e as páginas, farei isso sem dificuldade alguma. Sigamos.

<<Sobre cordialidade>>

Observo de antemão o caráter gentil das linhas escritas por Ferreira. Não detectei nenhum tom belicoso. Isso é bom, pois não podemos imitar, por exemplo, a disposição raivosa (“disposição raivosa” é um eufemismo) que o Sínodo de Dort dispensou ao ancião arminiano Van Oldenbarneveldt, crente, irmão de fé, que foi decapitado e teve seus bens confiscados. Discussões e debates entre crentes, irmãos de fé, devem sempre ocorrer no campo das ideias e nada mais. Não cabe a cristãos autênticos serem iracundos e ofensivos no trato com o outro por causa de pontos de vistas teológicos distintos e nem por qualquer outra razão (sei o que é agir assim e o que é ser vítima disso). Afinal de contas, um crente genuíno tem o Espírito Santo para guiá-lo por um caminho distante da contenda. Paulo disse que não convém ao servo do Senhor contender (2Tm 2:24). Quem dera teólogos de todos os tempos tivessem observado esta Escritura. Parabenizo a Ferreira pelo tom irênico (tomo por empréstimo esta palavra que ele usou referindo-se ao escrito de Daniel) de seus comentários.

Feito esse destaque importante, passo a comentar algumas colocações de Ferreira que penso estarem relacionadas ao modo como ele vê o arminianismo clássico.

<<Sobre os sistemas pelagiano, semipelagiano e arminiano>>

O autor comunga com Daniel que o arminianismo não é pelagianismo e isso me deixou deveras contente, pois é comum ler e ouvir acadêmicos calvinistas concluírem que o arminianismo clássico é pelagianismo. Depois, Ferreira argumenta que dependendo de qual autor se lê podemos nos deparar com um arminianismo que é semipelagianismo ou semiagostinianismo. Estou de acordo. A respeito daquelas duas últimas terminologias, para fins de debates, opto sempre por usar o semiagostinianismo. Explico: o que é denominado de semipelagianismo está relacionado a um meio-termo que surge da querela entre os sistemas pelagiano e agostiniano. Ora, o que emerge da disputa não provém de qualquer núcleo teológico relacionado a Pelágio e sim a Agostinho. Não se tratava de uma forma modificada do sistema teológico de Pelágio, pois a teologia pelagiana foi rejeitada peremptoriamente. Tratava-se de manifestações do núcleo teológico agostiniano, do qual alguns, além de contraporem-se às doutrinas pelagianas,
não estavam dispostos a seguir o bispo de Hipona até as últimas consequências de sua teologia. Destacar isso é importante porque, como Jessy Hurlbut, outros historiadores dizem que o pensamento soteriológico agostininano foi o que sempre prevaleceu na história da igreja, o que é uma inverdade possível de ser provada tanto no tocante aos quatro primeiros séculos bem como no tempo posterior a Agostinho. Nem o agostiniano Próspero de Aquitânea subscreveu as doutrinas mais radicais de Agostinho.

<<Sobre exegese, exegese e mais exegese>>

Ferreira crítica Daniel por apresentar textos-prova para suas afirmações e não oferecer nenhuma discussão léxical e/ou exegética. Não vou entrar no mérito da reprimenda. Mas, entendendo (acredito que Daniel também) a importância de uma abordagem exegética dos textos bíblicos, conforme destaca Ferreira. Por isso, desejo apresentar aqui duas referências bíblicas pinçadas do artigo de Daniel que atestam a doutrina da expiação ilimitada, uma doutrina cara ao arminianismo clássico.

Tais escrituras não serão dadas apenas como textos dos quais se presume a expiação ilimitada, mas sofrerão uma análise exegética e lexical. Exporei as coisas assim: 1. Apresentarei uma conclusão de Charles Spurgeon sobre o que fazem estudiosos calvinistas com o texto de 1Timóteo 2:4. Só escreverei a conclusão porque Spurgeon certamente fez a exegese da passagem e chegou a conclusão que qualquer exegeta fiel ao que está escrito chegaria. 2. Posteriormente, trabalharei a passagem de 1João 2:2. Aqui apresentarei uma exegese da referida escritura.

1. Spurgeon e 1Timóteo 2:4

E então? Tentaremos colocar um outro sentido no texto do que já tem? Penso que não. Precisa-se, para a maioria de vocês, conhecer o método comum com qual os nossos amigos Calvinistas mais velhos lidaram com esse texto. ‘Todos os homens,’ dizem eles, -- ‘quer dizer, alguns homens’: como se o Espírito Santo não poderia ter falado ‘alguns homens’ se quisesse falar alguns homens. ‘Todos os homens,’ dizem eles; ‘quer dizer, alguns de todos os tipos de homens’: como se o Senhor não poderia ter falado ‘Todo tipo de homem’ se quisesse falar isto. O Espírito Santo através do apóstolo escreveu ‘todos os homens,’ e sem dúvida quer dizer todos os homens. Estava lendo agora mesmo uma exposição de um doutor muito apto o qual explica o texto de tal forma que muda o sentido; ele aplica dinamite gramatical no texto, e explode o texto expondo-o […] O meu amor pela consistência com as minhas próprias doutrinas não é de tal tamanho para me autorizar a alterar conscientemente um só texto da Escritura. Respeito grandemente a ortodoxia, mas a minha reverência para a inspiração é bem maior. Prefiro parecer cem vezes ser inconsistente comigo mesmo do que ser inconsistente com a palavra de Deus.

Spurgeon diz que calvinistas

  • mudam o sentido da Escritura;
  • aplicam dinamite gramatical no texto;
  • explodem o texto expondo-o;
  • alteram o texto em favor de suas próprias doutrinas;
  • estimam mais a ortodoxia do que a inspiração bíblica;
  • e são inconsistentes.


Com a palavra Ferreira para apresentar sua exegese de 1Timóteo 2:4.

2. Uma exegese de 1João 2:2.

Ainda no tocante a interpretação bíblica, propomos um olhar sobre o vocábulo grego holos nas passagens de 1João 5:19 e 2:2.
Holos, segundo James Strong, significa “’todo’ ou ‘tudo’, i.e., ‘completo’: em extensão ou quantidade [...] como advérbio: tudo, inteiramente.” Gingrich e Danker estão de acordo e Rienecker e Rogers idem. Passemos à leitura das referências bíblicas. Sabemos que somos de Deus e que o mundo todo jaz no maligno. (1Jo 5:19)

“Mundo todo”, nesta referência, em termos de quantidade, indica a totalidade das pessoas. Nenhum intérprete calvinista ousa impor (ou ousa?) ao texto uma espécie de categoria de pessoas, mas toma a referência como um todo inclusivo, pois o autor está a tratar disso. O estudioso calvinista sabe que o mundo, a humanidade inteira, rebelde, está nas garras do maligno. No entanto, ao ler 1João 2:2, a coisa muda de figura.

E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo todo.

“Mundo todo” aqui para intérpretes calvinistas significa “mundo dos eleitos”. Dessa forma, em um mesmo texto, sob a pena do mesmo autor, em um contexto imediatíssimo, esses intérpretes dão sentidos diferentes à mesma palavra (todo) e expressão (mundo todo). Estive em uma mesa de debate com o doutor em hermenêutica e interpretação bíblica, Augustus Nicodemus, e ele chamou a atenção para a necessidade de se entender uma palavra revestida de alguma obscuridade exatamente no contexto mais imediato possível. Ou seja, antes de ir a outros textos e autores é preciso averiguar se a palavra ou expressão ocorre no mesmo texto e autor estudado. Perfeito! Logo, encerra-se ser necessário usar do mesmo procedimento no tocante à palavra “todo” e a expressão “mundo todo” nas referências joaninas em foco. Portanto, o “mundo todo” em 5:19 que está em pecado é o “mundo todo” de 2:2 passível de receber os benefícios da expiação. A boa hermenêutica deve chegar a essa conclusão, pois estamos tratando de regras básicas. A análise gramatical, per se, resolve a questão. Dizendo isso demonstramos o alto valor que damos ao sentido gramatical.

Não sendo suficiente para alguns, o próximo passo hermenêutico é a análise contextual, e esta, prova não poder comportar outro significado que não seja entender “todo mundo” como a totalidade das pessoas. Ademais, João fala sobre “pelos nossos pecados”, referindo-se aos crentes, e “pelos do mundo inteiro” referindo-se aos descrentes. Duas categorias bem distinguidas.

Outro malabarismo interpretativo proposto por calvinistas chega ao ponto de concluir que quando João diz “pelos nossos” ele está se referindo aos judeus convertidos e quando diz “pelos do mundo inteiro” trata-se de uma indicação dos gentios convertidos. Disso supõe-se serem os interlocutores de João todos judeus. Ora, a primeira Epístola de João é um texto tardio escrito em cerca de 90 d.C. e as comunidades já a muito eram compostas de crentes judeus e gentios. Tomando por certo que as epístolas joaninas foram endereçadas às comunidades cristãs da Ásia Menor reforça-se ainda mais o caráter misto das igrejas. Portanto, o apelo calvinista ao contexto histórico também desconstrói a interpretação dada à palavra “todo” e à expressão “mundo todo” chegando ao sentido de “mundo dos eleitos”.

Os arminianos clássicos seguem a boa hermenêutica e contenta-se tranquilamente com a intenção autoral. A gramática, o contexto imediato e o contexto histórico observados seguidamente nos informa que “mundo todo” em 5:19 e 2:2 trata da totalidade das pessoas sem ocupar-se com eleitos e não eleitos. Em extensão, a expiação é em favor de todos.

Não duvido que possa existir uma exegese melhor. Espero que Ferreira apresente as interpretações calvinistas “mais coerentes e consistentes com o texto bíblico” (resgato uma fala de Ferreira).

Meu amigo Walson Sales, arminiano fervoroso, de cinco pontos, a um tempo atrás me passou estas considerações históricas:

O que duas coisas todos esses homens – João Calvino, Heinrich Bullinger, Thomas Cranmer, Richard Baxter, John Preston, John Bunyan, John Howe, Zacharias Ursinus, David Paraeus, Stephen Charnock, Eduard Polhill, Isaac Watts, Jonathan Eduards, David Brainard, Thomas Chalmers, Phillip Dod-dridge, Ralph Wardlaw, Charles Hodge, Robert Dabney, W.G.T Shedd, J. C. Ryle, A.H.Strong – tem em comum? Todos foram calvinistas, e todos não ensinaram expiação limitada. Tal alegação com frequência choca igualmente calvinistas e não-calvinistas.

O que duas coisas todos esses nomes tem em comum? John Davenant, Mattias Martinius, Samuel Ward, Thomas Goad, Joseph Hall, Ludwig Crocius, e Johann Heinrich Alsted? Todos foram calvinistas, e todos foram delegados em Dort que rejeitaram a expiação limitada.

O que duas coisas esses nomes tem em comum? Edmund Calamy, Henry Scudder, John Arrowsmith, Lazarus Seaman, Richard Vines, Stephen Marshall, e Robert Harris? Todos foram calvinistas e todos foram teólogos em Westminster que rejeitaram a expiação limitada. Todos os homens acima também afirmaram a forma de expiação universal (Capítulo 4 do livro WHOSOEVER WILL: A BIBLICAL-THEOLOGICAL CRITIQUE OF FIVE POINT CALVINISM do dr David L. Allen – The Atonement: Limited dor Universal?)

Graças a Deus pela expiação ilimitada!

<<Sobre presciência divina e expiação universal>>

Ferreira levanta a seguinte questão sobre a doutrina da presciência como pensada pelos arminianos clássicos: “se Deus já sabia quem receberia a Cristo, por que este precisaria morrer por todos?” Tal questão soa no sense. A morte de Cristo no arminianismo clássico não é para aqueles que Deus sabia que se arrependeria, mas é para toda a humanidade. Tal sacrifício como pensado pelo arminianismo clássico revela, antes de mais nada, o amor de Deus por toda humanidade e por cada pessoa (Jo 3:16) e seu santo desejo de que todos se salvem (1Tm 2:4, 2:6; Tt 2:11; 2Pe 3:9). Creio que Ferreira tenha conhecimento da explicação arminiana para a questão que ele levanta. De todo modo, deixo a rápida e básica explicação acima.

<<Sobre Dort>>

Noutro momento, o escritor sai em defesa do Sínodo de Dort apresentando um excerto de John de Witt. Leiamos.

Os arminianos (...) utilizaram de toda engenhosidade para evitarem qualquer declaração [clara de seus ensinamentos] (...), exigiram que fosse seguida sua própria pauta de assuntos em lugar da do Sínodo, praticaram evasivas táticas de retardamento e obstruções (...) e rejeitaram a autoridade do Sínodo em julgá-los; isto a despeito do fato de ser legalmente um Sínodo da Igreja em que ocupavam cargos, à qual confessavam pertencer, e a cuja disciplina estavam obrigados a se submeter em virtude de suas ordenanças e votos!

Não vejo nada que deponha contra os arminianos nesta declaração quando trazemos a baila outras informações sobre o Sínodo. Para ser o mais objetivo possível na tentativa de desacralizar o Sínodo e de absolver os arminianos, apresento os excertos a seguir.

Frederick Calder escreveu:

A condenação foi determinada antes do Sínodo Nacional [...] montado, não tanto para examinar as doutrinas dos arminianos com o objetivo de analisar se eles eram dignos de tolerância e indulgência, mas para denotar um certo ar de solenidade e justiça [...]. Contando com a presença de ministros estrangeiros, autoridades respeitáveis, buscavam legitimar uma sentença elaborada e acordada anteriormente entre aqueles que estiveram à frente dos trâmites para a instalação do Sínodo.

Consoante Calder, o Sínodo foi montado apenas por uma questão pró-forma e de sagacidade, pois o veredito já era previsto.

Justo L. Gonzalez explica em torno de quais questões girou o debate depois dos remonstrantes apresentarem um documento (Remonstrance) contendo suas crenças. Vejamos.

[...] a controvérsia ficou envolvida num conjunto de questões políticas e sociais. A maioria das províncias marítimas, e especialmente a burguesia, que era numerosa e poderosa naquelas províncias, tomaram a posição arminiana. As classes baixas rurais, bem como aqueles das ilhas que viviam da pesca, apoiaram o Calvinismo rígido de Gomarus, e foram acompanhadas nesta posição por diversos estrangeiros exilados para quem a pureza da fé era essencial. Assim como as províncias marítimas apoiaram João Barneveldt em sua oposição ao poder crescente de Maurício de Nassau, os arminianos contaram com o apoio de Barneveldt, enquanto Maurício era a favor dos Gomaristas. Quando Roterdã optou pela posição remonstratense, Amsterdã, que há muito era sua rival, assumiu a posição oposta. De qualquer forma, em 1618, Maurício de Nassau e seu partido tinham consolidado seu poder, e, portanto, quando o Sínodo de Dort foi convocado estava claro que ele condenaria a posição remonstratense.

Eram questões políticas e sociais deram o tom da controvérsia. Pelo menos é o que informa Gonzalez.

Ora, sabedores de todas as articulações políticas cheias de péssimas intenções, nada mais natural o comportamento dos arminianos criticado por Ferreira citando Witt. Caso eu estivesse no lugar deles faria a mesma coisa. Suponho que até Ferreira. Continuo apresentando Dort.

Gonzalez escreve:

Imediatamente depois do Sínodo de Dordrecht tomaram medidas contra os arminianos e seus partidários... Quase uma centena de ministros de convicções arminianas foram banidos e outros tantos foram privados dos púlpitos. Aos que insistiam em continuar pregando foi determinada a prisão perpétua. Os leigos que assistiam aos cultos arminianos corriam o perigo de ter que pagar pesadas multas. Para se assegurarem de que os ministros não ensinassem doutrinas arminianas, também foi exigidoa aceitarem formalmente as decisões de Dordrecht. Em alguns lugares se chegou a exigir dos tocadores de órgão uma decisão semelhante Conta-se que um deles comentou que não sabia como tocar no órgão os cânones de Dordrecht.

José C. Rodriguez anota:

Quando o Sínodo de Dort se reuniu em 1618, os remonstrantes esperavam ser reconhecidos como iguais e que o sínodo ocorresse com espírito de fraternidade, mas não foi assim. Imediatamente depois do Sínodo, começaram as represálias e perseguições dos remonstrantes. Um total de 200 ministros arminianos foram depostos de seus cargos; 80 foram exilados; quase 70 fizeram um acordo para deixarem seus ministérios e guardarem silêncio. Líderes políticos tiveram seus bens apreendido. Van Oldenbarnevedelt foi declarado culpado de traição e em 14 de maio foi decapitado. Grócio foi sentenciado a prisão perpétua, porém com a ajuda de sua esposa, que o escondeu em um baú grande, supostamente cheio de livros, pode escapar e fugir em 1621.

Segundo Laurence Vance, isso tudo aconteceu, pasme, sob o seguinte juramento:

Prometo diante de Deus, no qual creio e ao qual adoro, como estando presente neste lugar, e como sendo o Pesquisador de todos os corações, que durante o curso dos procedimentos deste Sínodo, que examinarei e julgarei, não apenas os cinco pontos, e todas as diferenças que deles resultam, mas também qualquer outra doutrina, eu não usarei nenhuma composição humana, mas somente a palavra de Deus, que é uma infalível regra de fé. E durante todas estas discussões, somente objetivarei a glória de Deus, a paz da Igreja, e especialmente a preservação da pureza da doutrina. Então me ajude, meu Salvador, Jesus Cristo! Eu lhe suplico assistir-me pelo seu Espírito Santo!

Calder informa-nos:

Os Estados da Holanda, por meio de seus deputados, prometeram, verbalmente, que nenhum dano físico deveria ser infringido a eles, visto que o Sínodo estava sendo montado para examinar os pontos em disputa [...]. Mas, eles violaram a sua palavra, como os príncipes católicos fizeram com John Huss. Pois, embora tivessem feito a promessa acima, não lhes permitiram sair de Dort, visitar suas casas, mesmo quando na ocorrência das aflições familiares mais urgentes, ou em caso de morte [...]; e, finalmente, foram banidos do país como criminosos.

Qual o valor da palavra de um Sínodo que como diz Ferreira “talvez seja o mais importante concílio protestante já ocorrido”?

Fechando esse momento descritivo do que andou acontecendo pelos lados de Dordrecht sob um juramento em nome da Trindade, transcrevo mais uma informação de Calder.

Na manhã seguinte, 13 de maio de 1619, o último ato dessa tragédia foi realizado com o assassinato da vítima inocente, para servir como o selo de sanção dos trabalhos do Sínodo. Trazido à presença de seus juízes, a sentença foi lida [...] que terminava assim: "John Oldenbarneveldt sairá para o local da execução, terá a cabeça cortada pela espada da justiça, e seus bens serão confiscados." Ele recebeu esta sentença de morte [...] com um semblante destemido, e disse: “Eu estava com boas esperanças de que vossas excelências [...] permitissem que meus bens ficassem para minha esposa e filhos.” Estas últimas palavras ele pronunciou com uma voz fraca e semblante abatido, mas sendo informado pelo presidente que ele deveria submeter-se a sua sentença, retomou a sua firmeza, e levantando-se da assento foi imediatamente conduzido através do grande salão para o cadafalso. A sala estava cheia de seus amigos e conhecidos. Ele não tomou conhecimento de nenhum deles quando passou, e continuou a dar-se com a mesma grandeza e serenidade em seu caminho para o cadafalso, apoiado em seu cajado, e apoiado por seu servo. Quando chegou lá, perguntou: "Será que não há almofada ou banquinho para que eu me ajoelhe?" e, em seguida, ajoelhando-se sobre as tábuas ásperas, ele orou por um tempo. Então, levantou-se e começou a preparar-se, dizendo, ao apontar para o carrasco: "Esse homem não precisa me tocar." Ajoelhando-se para receber o golpe fatal, ele se dirigiu ao povo, exclamando em voz alta. "Bons cidadãos, não acredito que morro como um traidor, mas, pelo contrário, como um verdadeiro patriota"; e, em seguida, ajoelhando-se, levantando as mãos para o céu, disse: "Cristo é o meu guia; Senhor, tem piedade de mim, Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito"; foi quando o carrasco deu um golpe só em sua cabeça. E assim caiu este ilustre estadista e cristão.

Isso foi Dort, consoante autores citados. Via de regra, ao falarem do Sínodo de Dort, os calvinistas não trazem a tona aqueles eventos. Ficam sempre no meio da estrada. Isso é Lamentável. Não sei o que escreveu Silas Daniel sobre Dort, mas se teceu críticas, fez muito bem. Se o desconsiderou como santo e temente a Deus, fez bem. Matthias Martinius, um dos delegados presentes, arrematou: “(havia) alguns divinos, alguns humanos, alguns diabólicos.”

<<Sobre “desertores” do pensamento original de Armínio>>

Ferreira destaca ter Silas Daniel reconhecido que seguidores de Armínio se afastaram progressivamente do pensamento original do teólogo holandês. Daneil mais uma vez acertou em cheio dando esse destaque em seu texto. Muitos calvinistas medem Armínio, os primeiros remonstrantes e muitos arminianos clássicos de hoje com a “régua” Phillip Limborch que se afastou de Armínio apresentando ensinos próximos ao semipelagianismo e amalgamados à religião natural do Iluminismo. Tenho tido sempre a impressão que fazem isso por desonestidade intelectual. Simon Episcopius, o principal líder dos remonstrantes, amigo de Armínio, manteve-se firme e apegado aos ensinos soteriológicos de mestre.

<<Sobre a divindade de Cristo e o arminianismo clássico>>

Quando Ferreira levanta a negação da divindade de Cristo por parte de arminianos posteriores, estaria ele referindo-se à fórmula autotheos (Deus em si mesmo) Tanto Armínio como Episcopius defendiam esta fórmula do mesmo modo que os pais capadócios e o grande Atanásio, Patriarca de Alexandria. Armínio e Episcopius nunca negaram que o Filho fosse da mesma essência do Pai, mas defendia que o Pai é a fonte da divindade. Portanto, ao se referir à negação da divindade do Filho, caso esteja Ferreira fazendo menção à fórmula autotheos, não é procedente inferir desta fórmula como sendo uma negativa da deidade de Jesus Cristo.

Armínio disse:

“Essa pessoa é o Filho de Deus e o filho do homem, dotado de duas naturezas, a divina e a humana, inseparavelmente unidas, sem mistura ou confusão [...] os antigos denominaram, corretamente, esta união de hipostática.”

Armínio (Episcopius e remonstrantes também) cria na Trindade Ontológica

<<Sobre o fim>>

Finalmente, Ferreira, encerrando seus comentários concernentes ao texto de Silas Daniel ressaltando a importância do estudo da história do pensamento cristão, certeza com a qual concordo. Depois ele argumenta que o supremo juiz para decidir toda discussão sobre doutrina é a Escritura. Concordo mais uma vez. Não há dúvidas de que o que conta é o ensino da Escritura. Sigo de perto a Armínio com sua sentença: “Deve prevalecer a palavra do homem sobre a Palavra de Deus? Deve estar ligada a consciência do homem cristão pela Palavra de Deus ou pela palavra do homem?” Por último, devo concordar com Ferreira mais uma vez quando ele diz ser necessário estudar as Escrituras “por meio de exegese, exegese e mais exegese”. Que os calvinistas primem por isso para não serem repreendidos com a dureza com a qual Spurgeon censurou um certo doutor calvinista que aplicava dinamite gramatical a 1 Timóteo 2:4.

UMA RESPOSTA AO FRANKLIN FERREIRA





Por Luís Felipe Nunes Borduam


1. Parabéns pelo tom irênico do Franklin Ferreira em seu comentário. Atitude tão rara no meio calvinista contemporâneo;

2. Nosso irmão falha ao afirmar que os ensinos de João Wesley e sua tradição é semi-pelagiana ou semi-agostiniana.

Wesley defende os mesmos pressupostos do Arminianismo clássico, tais como, a Depravação Total e a Expiação Substitutiva Penal. Wesley vai além, apenas, por descrever com maior vigor o processo de santificação e a possibilidade real de apostasia e, em nada, ele tende ao semi-pelagianismo;

3. Franklin critica o artigo por não apresentar a exegese de textos claramente arminianos.
O artigo não tinha esse propósito, por isso, não foi apresentado. O foco era apresentar um panorama histórico da teologia arminiana e sua ortodoxia;

4. Diz também que o autor não cita comentários bíblicos para sustentar a exegese arminiana.
Sim. Ainda temos muito pouco material arminiano de qualidade em lingua portuguesa, tendo em vista, que as editoras mais abrangentes e fortes tem um compromisso com a teologia calvinista, mas isso já está mudando aos poucos. "Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará". Muitos tem caido no engodo calvinista, porque boa parte dos poucos materiais arminianos que temos em português são caricaturas escritas por calvinistas ou "arminianos" mal informados.

5. Afirma que existem muitos comentários bíblicos de calvinistas que refutam os versículos que tem conotação arminiana.

E desde quando ter muitos comentários bíblicos sobre um assunto quer dizer que eles estão certos? Sem contar que esses comentáristas "interpretam" esses textos com a intenção de forçar as Escrituras a se conformarem com a filosofia calvinista e não com um compromisso com a revelação Bíblica. Esse método calvinista de "interpretação" foi denunciado por um calvinista chamado Charles Haddon Spurgeon, conhece?
Spurgeon escreveu acerca de 1 Tm 2:3,4 "Vocês, muitos de vocês, conhecem bem o método geral pelo qual os nossos velhos amigos calvinistas tratam este texto. 'Todos os homens', dizem eles - 'isto é, alguns homens', se quisesse dizer alguns homens. 'Todos os homens", dizem eles; 'isto é, alguns de todos os tipos de homens', se Ele quisesse dizer isso. O Espírito Santo, por meio do apóstolo, escreveu 'todos os homens' e, inquestionavelmente, Ele quer dizer todos os homens. Sei como descartar a força do termo 'todos', segundo aquele método crítico que há algum tempo era muito corrente, mas não vejo como se pode aplicar isso aqui mantendo a devida consideração pela verdade. Há pouco estive lendo a exposição de um habilidoso doutor que explica o texto acabando com ele; ele aplica pólvora gramatical ao texto, e o faz explodir a título de explicá-lo. Quando li a sua exposição, pensei que teria sido um comentário de capital importância se o texto dissesse: 'Que não quer que todos os homens se salvem, nem que cheguem ao conhecimento da verdade'. Se essa fosse a linguagem inspirada, todas as observações feitas pelo ilustre doutor ser-lhe-iam exatamente fieis, mas como acontece que ela diz, 'Que deseja que todos os homens sejam salvos', as suas observações estão mais de que um pouco fora de lugar." (Iain Murray, Spurgeon versus Hipercalvinismo. PES. 2006. p. 171,172).

6. O crítico chama as tensões que Silas Daniel apresenta no artigo de contradições.

Contradições é eu afirmar que Deus determina exaustivamente todas as coisas e mesmo assim o homem é responsável por seus atos. Isso é contradição. Não podemos confundir contradição, tão comum na teologia calvinista, com os paradoxos (aparentes contradições que analisadas fora do senso comum podem ser compreeendidas) encontrados na teologia arminiana.
Ele apresenta as seguintes situações como "contradições" arminanas: "se Deus já sabia quem receberia a Cristo, por que este precisaria morrer por todos?"
Não vejo contradição aqui. Deus saber quem iria se render a ação da Sua graça e morrer por todos é só uma prova da universalidade do amor e da bondade de Deus. Deus assim o quis e "quem és tu ó homem, que a Deus replicas?" Se assim Ele quis mostrar Seu amor infinito e sua sabedoria, "porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens".
Diz também que é contraditório nós crermos em algum tipo de predestinação.
Porque seria? Nós cremos que Deus determinou muitas coisas. Cremos que Deus predestina pessoas para obras específicas. Só não cremos, segundo as Escrituras, que Deus determinou pessoas obrigatoriamente a irem para o inferno. Não cremos no determinismo exaustivo, mas cremos em determinações e intervenções de Deus na história.
Sobre a questão de quem pôs o futuro lá? Por favor, Deus é onisciente e sabe até as coisas que aconteceriam caso as decisões dos homens fossem outras. Exemplo: I Sm. 23:12, Davi pergunta se ele permanecer em Queila o povo dessa Cidade iriam entregar ele nas mãos de Saul e Deus responde: Vão te entregar.
Peraí, então. Como Deus pode saber uma coisa que iria acontecer no futuro sem ele ter posto o futuro lá? Simplesmente porque Ele sabe o desfecho que se daria em qualquer circusntancia possível. Chamamos isso de conhecimento médio. Molina, William Lane Craig etc explicam bem isso. Essa pergunta retórica a lá Granconato sobre quem colocou o futuro lá é só para enganar incautos.

7. O crítico tenta validar a predestinação calvinista usando uns poucos exemplos de teólogos medievais.

Achei interessante a estratégia que ele usa para validar o calvinismo historicamente. Pinça alguns teólogos medievais que creram em variaçoes da predestinação para afirmar que defendiam um tipo de "calvinismo".

Sabemos que analisando por um viés histórico o calvinismo é inaceitável, por várias razões:

A. Todos os Pais da Igreja eram sinergistas, exceto Agostinho, que cria no monergismo "calvinista";

B. Os judeus e a tradição judaica eram e são sinergistas;
C. Vários pontos do calvinismo foram refutados e condenados como heréticos nos concilios de Arles (473) e de Orange (529) (a Eleição Incondicional, a Graça Irresistível e a Expiação Limitada condenados nesses concílios); e o Sínodo de Jerusalém de 1672 (condena todo o calvinismo);

D. A manipulação política do sínodo de Dort;

E. As impiedades que os governos com influência calvinista cometeram, tais como com Servetus, os assassinatos e prisões de Arminianos em Dort, a covardia que fizeram com os pastores e suas famílias durante o processo do concílio etc.

F. Os grandes apologetas modernos e contemporâneos como William Lane Craig, C.S Lewis, Chesterton, Norman Geisler, A.W Tozer, Alvin Plantinga etc defendem o sinergismo arminiano e o arbítrio liberto.

G. Enfim, o calvinismo não se sustenta em uma perspectiva da teologia histórica. Os pontos do calvinismo foram uma anomalia e uma heterodoxia Bíblica e da tradição judaico-cristã.

8. Franklin utiliza de um argumento muito comum na retórica calvinista ao citar John Fletcher.

Usa teólogos "arminianos" posteriores para tentar reler o arminianismo anterior e desmerecê-lo. Isso vale na retórica falaciosa, mas sabemos que tanto Jacó Armínio como John Wesley eram totalmente ortodoxos. Seria desonesto de minha parte se eu citasse Charles Finney que foi presbiteriano, mas defendia o semi-pelagianismo como um representante da teologia calvinista; assim como pegar os teólogos liberais calvinistas e reler e julgar o calvinismo com base neles. Vejo que essa é uma estratégia muito comum usada pelos calvinistas para desmerecer o arminianismo, mas creio que não somos mais tão incautos para cair nessas falácias.

9. Concordo com o último parágrafo de que as Escrituras tem o veredito final.

No final saberemos se Deus ama só alguns ou ama a todos; se Ele deseja que todos sejam salvos ou se Ele deseja que a maioria seja condenada; saberemos se a salvação é pela fé ou pelo decreto; etc.


Que Cristo nos ilumine para sabermos as respostas e, não apenas saber, mas a viver uma vida coerente com os Verdadeiros ensinos das Escrituras.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

A POSSIBILIDADE TEMEROSA DE UMA IRREPARÁVEL APOSTASIA

J. Wesley Adams

A quarta advertência exortativa: a possibilidade temerosa de uma irreparável apostasia (6.4-20).

Alguns intérpretes combinam 5.11-6.20 como uma unidade exortativa. No entanto, há boas razões para dividir a passagem em duas advertências separadas (embora relacionadas). Enquanto 5.11-6.3enfoca o perigo da lentidão e da regressão espiritual, com uma exortação para avançar em direção à maturidade, a segunda advertência enfoca a terrível possibilidade de uma apostasia irreparável, se tal regressão prosseguir de modo incontrolável (6.4-8). O autor então encoraja e desafia seus leitores a progredirem, prosseguindo em esperança e fé com perseverança (6.9-20).
Hebreus 6.4-6 constitui uma frase longa e complexa em grego, que adverte solenemente sobre a possibilidade de abandono (apostasia) da fé cristã e da impossibilidade desta vir a ser restaurada, uma vez que tal condição tenha ocorrido. A frase começa com a declaração “é impossível”, seguida de cinco particípios aoristos em uma construção paralela descrevendo quem está em discussão (6.4-6a), seguida por um infinitivo declarando a impossibilidade de arrependimento para os apóstatas (6.6a), e concluindo com duas frases participiais no presente declarando por que os apóstatas não podem ser restaurados (6.6b)3.
A palavra “impossível” (adynatos) ocorre quatro vezes em Hebreus. Em 6.18 “é ‘impossível’ que Deus minta”; em 10.4 “é ‘impossível’ que o sangue dos touros e dos bodes tire pecados”; em 11.6 “sem fé é ‘impossível’ agradar-lhe [a Deus]; e aqui (6.4) é “impossível” que os apóstatas sejam restaurados através do arrependimento. Em cada caso a impossibilidade é absolutamente declarada.
Quem são os sujeitos desta impossibilidade? A grande maioria de estudiosos do Novo Testamento acredita que os versículos 4 e 5 descrevam cristãos genuinamente convertidos — pessoas que são exortadas ao longo de Hebreus a perseverarem em sua fé, e não indivíduos que devem ser persuadidos a se tornarem verdadeiros cristãos (veja a nota número 2, no final). João Calvino (coerente com suas pressuposições teológicas) e muitos de seus seguidores acreditavam que as pessoas aqui descritas nunca estiveram no meio dos eleitos. I. Howard Marshall torna-se o representante dos estudiosos modernos da Bíblia quando declara: “Um estudo das descrições oferecidas aqui em uma série de quatro particípios [aorista grego] sugere de modo conclusivo que uma experiência cristã genuína está sendo descrita” (1969,142).
1) “Os que já uma vez foram iluminados” (6.4a) não significa simplesmente que aqueles a quem o texto está se referindo haviam recebido a instrução cristã, mas que ali ocorreu “uma entrada decisiva da luz do evangelho em suas vidas” (Peterson, 1994,1335), que resultou na renovação da mente e da experiência cristã.
2) A menção a terem provado “o dom celestial” (6.4b) se refere a terem recebido o dom de Cristo, juntamente com todas as bênçãos espirituais que Ele graciosamente concede. O termo “provaram” indica algo além do precioso conhecimento de Cristo; sugere “experimentar algo de uma maneira real e pessoal (não somente ‘provar uma pequena quantidade’)” (Peterson, 1994, 1335). A distinção calvinista entre “provar” e “comer” é injustificada aqui. O verbo “provar” diz respeito a experimentar o sabor ou a realidade daquilo que é comido, e não à quantidade daquilo que é comido.
3) A menção de que os sujeitos também haviam sido “participantes do Espírito Santo” (6.4c) — literalmente, “tornaram-se participantes do Espírito Santo”—refere-se claramente a uma experiência cristã em Hebreus (cf. Jo 20.22). O autor usa a palavra “participantes” (metochoi) três vezes em Hebreus como um de seus termos técnicos para aqueles que responderam à chamada de Deus para a salvação (Lane, 1991,74; Schmidt, WNT, 3:487-493). Deste modo os verdadeiros crentes são “participantes na vocação celestial” (3.1), “participantes de Cristo” (3-14), e “participantes do Espírito Santo” (6.4c). Bruce acrescenta: “Tem sido questionado se é possível que alguém—que tenha sido, em qualquer sentido real, um participante do Espírito Santo — cometa apostasia, mas nosso autor não tem nenhuma dúvida de que isto é possível... fizer agravo ao Espírito da graça’ (10.29)” (1990,146).
4) Aqueles que são descritos como os que “provaram a boa palavra de Deus e as virtudes do século futuro” (6.5). Note que o que é provado não é a Palavra de Deus em si, mas a sua bondade. Esta distinção é importante, desde que seja possível ler a Palavra de Deus “sinceramente, porém sem qualquer prazer ou apreço” (Guthrie, 1983,143). O único modo 4e experimentar a bondade da Palavra de Deus, porém, é pelo Espírito Santo. Ele também é a pessoa que capacita os crentes a experimentarem os poderes do mundo vindouro através de “sinais, e milagres, e várias maravilhas, e dons do Espírito Santo” (2.4), concedendo a cada um que participe no presente de um antegozo das bênçãos da salvação futura (9.11).
Assim, nestes quatro particípios aoristos descritivos listados um após o outro (6.4,5), o autor apresenta intencionalmente o peso da evidência acumulativa de que as pessoas descritas haviam testemunhado “o fato de que a salvação e a presença de Deus [em Cristo] eram as realidades inquestionáveis de suas vidas” (Lane, 1991,142).
“E se caírem é impossível (6.4a) outra vez renová-los para arrependimento” (6.6a). Embora os crentes em 6.4,5 sejam descritos como tendo experimentado um despertamento espiritual e se tornado participantes de Cristo, constituindo-se a habitação do Espírito Santo e tendo conhecido a bondade de Deus pela sua Palavra e poder, nosso autor agora apresenta a queda destes na fé como uma possibilidade real. A frase “e recaíram” (em inglês “se eles caírem”, NVI; também NKJV) não é uma oração condicional no grego (não há “se” em grego). Antes, a frase é um particípio aoristo (como nos versículos 4 e 5) e deve ser traduzida no tempo passado — literalmente, “recaíram” ou “tendo caído” (cf. ASV, NASB, NEB, NRSV, Williams). Desta maneira, nosso autor adverte: É impossível que aqueles que de modo premeditado e voluntário, cometem apostasia, depois de terem sido participantes de Cristo e do Espírito Santo, sejam “renovados para arrependimento”.
Então nosso autor acrescenta mais dois particípios (desta vez no tempo presente, com um sentido de continuidade) para descrever justamente o que seu lapso na fé significa e por que é impossível que sejam renovados para o arrependimento.
1) A impossibilidade existe porque “de novo crucificam o Filho de Deus” (6.6b). A impossibilidade de arrependimento aqui envolve mais do que lamentar pelo pecado passado; inclui uma mudança de pensamento ou atitude em relação a Cristo, como ocorreu inicialmente na conversão cristã. A seriedade da apostasia reside no fato de que ela “não é o resultado de uma decisão rápida em um momento de fraqueza, mas de um processo de endurecimento gradual dentro da mente que se cristalizou agora em uma ‘atitude constante de hostilidade a Cristo’” (Hawthorne, 1986,1516). Este fato é transmitido aqui pelo particípio do tempo presente. A linguagem referente a crucificar a Jesus Cristo novamente identifica a apostasia com o cinismo, a incredulidade e a malícia que o levaram originalmente à crucificação.
2) A frase “o expõem ao vitupério” (6.6c) sugere um repúdio e um desprezo vergonhosos a Cristo e “uma atitude de hostilidade incessante” (Guthrie, 1983,144). O fato de ambos particípios descrevendo o significado da apostasia estarem no tempo presente indica que “a ação de apostatar envolve uma postura contínua e obstinada em relação a Cristo... [que] os remove da única esfera onde o verdadeiro arrependimento e a reconciliação com Deus são possíveis” (Attridge, 1989,172) — isto é, no próprio Cristo. Deste modo, a sua queda ou apostasia é irremediável.
O estudioso F. F. Bruce observa corretamente (1990, 147-149) que o texto em 6.4-6 foi tanto “indevidamente minimizado” quanto “indevidamente exagerado”. Foi indevidamente minimizado por aqueles que argumentam de uma forma ou de outra que as pessoas descritas em 6.4, 5 nunca foram cristãos completamente regenerados (por exemplo, Grudem, 1995,133-182), ou que este foi somente um caso hipotético sendo apresentado pelo autor e não algo que pode realmente acontecer na prática (por exemplo, Hewitt, 1960,110-111). A passagem também foi indevidamente exagerada por aqueles que ensinam que uma vez que uma pessoa tenha se convertido e sido batizada em Cristo, e em seu corpo, e então por um lapso cair novamente em sua antiga vida pecaminosa, não poderá haver um perdão futuro ou uma restauração ao convívio cristão (por exemplo, Tertuliano sobre o pecado pós-batismal). Estas interpretações estão sendo aplicadas à passagem sem uma consideração de seu contexto, e não fazem nenhuma distinção entre “desviar-se” e “apostatar”.
O significado de 6.4-6 pode ser assim resumido:
1) O termo “recaíram” (v.6) não se refere a pecar de modo geral, mas especificamente a apostatar, e envolve negar a fé em Cristo após ter experimentado a sua graça e a sua salvação (freqüentemente abraçando qualquer outra religião, como por exemplo o judaísmo, o budismo, o ateísmo, etc.). Qualquer um que repudie “a salvação concedida por Cristo, não a achará em nenhum outro lugar” (Bruce. 1990,149).
2) Os dois particípios presentes no versículo 6 sugerem uma ação resistente que torna o arrependimento impossível. As Escrituras e a experiência semelhantemente indicam que é possível para homens de boa vontade tomar decisões, e chegarem a um estado de coração e vida, que não sejam mais capazes de responder a Deus com um verdadeiro arrependimento.
3) A passagem é uma advertência, não uma declaração de fato. Nem a comunidade endereçada, nem alguns de seus membros abandonaram sua fé em Cristo (6.9), embora a apostasia seja um perigo real para eles.
4) O propósito mais importante do autor é evidente em 6.9-20 (como ao longo de todo o livro de Hebreus) — isto é, encorajar seus leitores a permanecerem firmes na fé e a herdarem as promessas que estão em Cristo.

Fonte: J. Wesley Adams. Comentário Bíblico Pentecostal do Novo Testamento, pág. 1573-1576 – CPAD.

terça-feira, 26 de maio de 2015

PARA SEGUIR JESUS, EXIGI-SE DEVOÇÃO E CONCENTRAÇÃO - LUCAS 9.62




“E Jesus lhe disse: Ninguém que lança mão do arado e olha para trás é apto para o Reino de Deus” (Lc 9.62).
Jesus apela aqui para a prática da aradura para atingir o ponto desejado. Um homem segurava as manivelas de um arado enquanto os animais o puxavam. Ele tinha de guiá-lo com cuidado a fim de fazer um sulco reto. Se ele ficasse olhando para trás, não poderia fazer um bom trabalho de aradura. O mesmo é verdade para seguir Jesus. Exige devoção e concentração. Olhar para trás significa distração do serviço sincero. Jesus espera o melhor de nós. Entregar a Ele nossa completa devoção torna-nos adequados para ser usados no serviço do Reino de Deus.

Fonte: Comentário Bíblico Pentecostal do Novo Testamento, French L. Arrington. Pág. 382 - CPAD

segunda-feira, 11 de maio de 2015

EU AMO PORQUE DEUS ME AMOU



Por Carlos Pedro da Silva

Nós amamos Jesus e queremos nos parecer com Ele, e este amor que temos por Ele inicialmente vem dEle. Vem de Jesus. Às vezes, nos achamos bons e importantes por amá-IO. Mas o texto bíblico diz que não passa por nós esse benefício. O fato de estarmos aqui, na Igreja, é porque Ele nos amou primeiro. Não teríamos a menor chance de estarmos aqui hoje, a não ser por causa dEle. João disse: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira, que enviou o seu Filho Unigênito para que todo aquele que nele crê, não pereça, mas tenha a vida eterna”.
O Evangelho é entendido a partir de apóstolos como João. Tem muita gente que pensa o Evangelho de forma diferente. Se olharmos o Evangelho a partir da perspectiva de Judas, veremos a percepção do lucro. A sua ótica era que o Evangelho poderia dar muito dinheiro. Existem pessoas pensando no lucro.
Há aqueles que vêem o Evangelho na base do racionalismo. É tudo na base da Lei e de regras sobre regras. Ou seja, há muita gente que acha que o Evangelho é do ponto de vista do legalismo.
João tem uma percepção correta do Evangelho. João gosta de deitar com a cabeça no peito. Ele gosta de tratar como “filhinhos”. Ele vê o Evangelho de Cristo como o exercício da misericórdia. Ele pensa a misericórdia.
João entende, por meio de Cristo, que o Evangelho, na sua essência, é o amor, é a caridade. Caridade é o amor que move a vontade à busca efetiva do bem de outrem e procura identificar-se com o amor de Deus. O amor de Deus não é teórico, mas é o exercício da verdadeira compaixão. A caridade é o amor que nos leva a viver e a agir, e a buscar de forma afetiva o bem de outros. Agindo assim, nos identificamos com Jesus.
Jesus falou que nós seremos Seus discípulos se fizermos o que Ele manda.  E o Seu mandamento é este: que amemos uns aos outros. Podemos praticar esse amor, porque experimentamos esse amor. Só consegue viver Jesus, quem vive o Seu amor. João coloca três coisas maravilhosas:
1º A caridade é a capacidade de, através da misericórdia, abrir caminho para que a vida se manifeste. Está no versículo 9 de 1 João 4: “O amor de Deus para conosco manifestou-se no fato de Deus ter enviado seu Filho unigênito ao mundo para que vivamos por meio dele”.
Se você ama como Deus ama, você é um facilitador para que a vida de Deus se manifeste em outras pessoas. Sou eu que tenho essa responsabilidade. A Vida precisa fluir através de nós. Somos um agente de vida.
2º - A caridade nos ensina o caminho do perdão. Está no versículo 100 de 1 João 4: “Nisto está o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele quem nos amou e enviou seu Filho como propiciação pelos nossos pecados”.
É através de nós que o mundo vai conhecer o que é perdoar. Quando tenho a capacidade de perdoar e agir como Jesus, então sou luz.
Tem gente que ainda carrega magoas e dificuldades dentro de si, e ainda não aprenderam a perdoar. O perdão que Ele me ensina é um perdão que Ele nos deu na cruz. Ele nos trouxe para perto dEle depois do perdão. É assim que devemos fazer. Perdão é ter a capacidade de apagar os erros e criar uma relação fraternal. É este o Evangelho que Deus colocou para nós: aprender a andar com os nossos irmãos.
3º - O exercício da compaixão lança fora o medo. Sim, pois nos faz parecidos com o próprio Deus. Está no versículo 18 de 1 João 4: “No amor não há medo, pelo contrário, o perfeito amor lança fora todo o medo,”
Quando começo a exercer a compaixão e a viver a prática da caridade cristã, olhando as pessoas como Deus está olhando, então eu vou ficando parecido com o Senhor Jesus. E esse amor lança fora o medo, inclusive de uma condenação, de um julgamento.
Como é bom viver aquilo que o Senhor nos ensina! O mundo precisa ver o Senhor em nós! O mundo precisa olhar para nós e ver que parecemos com Jesus. Você tem que parece com Jesus. João disse ainda: “Se alguém diz: ‘Eu amo a Deus’, mas odeia o seu irmão, é mentiroso. Pois ninguém amar a Deus, a quem não vê, se não amar o seu irmão, a quem vê.
Você é mentiroso? O mandamento de Cristo é este: quem ama a Deus no domingo de manhã, ama seu irmão todos os dias. Essa é a ótica de João. Pedro pergunta: “Quantas vezes eu devo perdoar o meu irmão? Quem é meu irmão?”. Lucas 10.25 narra a Parábola do Bom Samaritano. “A quem devo amar?”, era a pergunta do mestre da Lei. E Jesus contou essa parábola. Aquele samaritano tinha azeite. Aquele homem caído não era um bandido ou viciado, era o homem comum. Um homem comum que foi ferido no meio do caminho.    Foi assaltado, ferido e estava prostrado no caminho. E muita gente é religioso demais e “santo” demais que não pode ajudar esse maltrapilho na beira da estrada, caído na beira do caminho e ferido. Mas, o samaritano unge ele com azeite. Você só pessoas com quem você quer se relacionar. Ungir quem está bem e é seu amigo não é nada demais. Há homens caídos que você não sabe quem são. Nós não os conhecemos, mas temos a capacidade de ajudar esses.
O samaritano tinha vinho, tinha alegria. Tem gente que está muito amargurada e triste e você pode proporcionar alegria para essas pessoas!
Ele cobriu as feridas, não deixou estas expostas. O samaritano sabia que não poderia deixar aquele homem assim. E Jesus termina a parábola dizendo: “Vá e faça a mesma coisa”. É assim que o Senhor deseja, que possamos ir e fazer a mesma coisa. Pereça com Ele, vá e faça o mesmo. Em Mateus 25.31-40, lemos: “Quando, pois, o Filho do homem vier na sua glória, e todos os anjos com ele, então se sentará no seu trono glorioso; e todas as nações serão reunidas diante dele; e ele separará uns dos outros, à semelhança do pastor que separa as ovelhas dos cabritos; e porá as ovelhas a sua direita, mas os cabritos a sua esquerda. Então o rei dirá aos que estiverem a sua direita: vinde, benditos de meu Pai. Possui por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me deste de beber; era estrangeiro, e me acolhestes; precisei de roupas, e me vestistes; estava na prisão e fostes visitar-me. Então os justos lhe perguntaram: Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer, ou sede e te demos de beber? Quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos, ou precisando de roupas e te vestimos? Quando te vimos doente, ou na prisão, e fomos visitar-te?”.
Meditemos sobre essa palavra de Jesus. Mais do que isso: vivamos essa verdade em nossas próprias vidas, hoje e sempre.

Carlos Pedro da Silva é pastor e vice-presidente da Assembleia de Deus em Itaóca (RJ).


Fonte: Jornal Mensageiro da Paz. Fevereiro de 2013, pág. 27.