Arminianos Cearenses

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quarta-feira, 27 de maio de 2015

A POSSIBILIDADE TEMEROSA DE UMA IRREPARÁVEL APOSTASIA

J. Wesley Adams

A quarta advertência exortativa: a possibilidade temerosa de uma irreparável apostasia (6.4-20).

Alguns intérpretes combinam 5.11-6.20 como uma unidade exortativa. No entanto, há boas razões para dividir a passagem em duas advertências separadas (embora relacionadas). Enquanto 5.11-6.3enfoca o perigo da lentidão e da regressão espiritual, com uma exortação para avançar em direção à maturidade, a segunda advertência enfoca a terrível possibilidade de uma apostasia irreparável, se tal regressão prosseguir de modo incontrolável (6.4-8). O autor então encoraja e desafia seus leitores a progredirem, prosseguindo em esperança e fé com perseverança (6.9-20).
Hebreus 6.4-6 constitui uma frase longa e complexa em grego, que adverte solenemente sobre a possibilidade de abandono (apostasia) da fé cristã e da impossibilidade desta vir a ser restaurada, uma vez que tal condição tenha ocorrido. A frase começa com a declaração “é impossível”, seguida de cinco particípios aoristos em uma construção paralela descrevendo quem está em discussão (6.4-6a), seguida por um infinitivo declarando a impossibilidade de arrependimento para os apóstatas (6.6a), e concluindo com duas frases participiais no presente declarando por que os apóstatas não podem ser restaurados (6.6b)3.
A palavra “impossível” (adynatos) ocorre quatro vezes em Hebreus. Em 6.18 “é ‘impossível’ que Deus minta”; em 10.4 “é ‘impossível’ que o sangue dos touros e dos bodes tire pecados”; em 11.6 “sem fé é ‘impossível’ agradar-lhe [a Deus]; e aqui (6.4) é “impossível” que os apóstatas sejam restaurados através do arrependimento. Em cada caso a impossibilidade é absolutamente declarada.
Quem são os sujeitos desta impossibilidade? A grande maioria de estudiosos do Novo Testamento acredita que os versículos 4 e 5 descrevam cristãos genuinamente convertidos — pessoas que são exortadas ao longo de Hebreus a perseverarem em sua fé, e não indivíduos que devem ser persuadidos a se tornarem verdadeiros cristãos (veja a nota número 2, no final). João Calvino (coerente com suas pressuposições teológicas) e muitos de seus seguidores acreditavam que as pessoas aqui descritas nunca estiveram no meio dos eleitos. I. Howard Marshall torna-se o representante dos estudiosos modernos da Bíblia quando declara: “Um estudo das descrições oferecidas aqui em uma série de quatro particípios [aorista grego] sugere de modo conclusivo que uma experiência cristã genuína está sendo descrita” (1969,142).
1) “Os que já uma vez foram iluminados” (6.4a) não significa simplesmente que aqueles a quem o texto está se referindo haviam recebido a instrução cristã, mas que ali ocorreu “uma entrada decisiva da luz do evangelho em suas vidas” (Peterson, 1994,1335), que resultou na renovação da mente e da experiência cristã.
2) A menção a terem provado “o dom celestial” (6.4b) se refere a terem recebido o dom de Cristo, juntamente com todas as bênçãos espirituais que Ele graciosamente concede. O termo “provaram” indica algo além do precioso conhecimento de Cristo; sugere “experimentar algo de uma maneira real e pessoal (não somente ‘provar uma pequena quantidade’)” (Peterson, 1994, 1335). A distinção calvinista entre “provar” e “comer” é injustificada aqui. O verbo “provar” diz respeito a experimentar o sabor ou a realidade daquilo que é comido, e não à quantidade daquilo que é comido.
3) A menção de que os sujeitos também haviam sido “participantes do Espírito Santo” (6.4c) — literalmente, “tornaram-se participantes do Espírito Santo”—refere-se claramente a uma experiência cristã em Hebreus (cf. Jo 20.22). O autor usa a palavra “participantes” (metochoi) três vezes em Hebreus como um de seus termos técnicos para aqueles que responderam à chamada de Deus para a salvação (Lane, 1991,74; Schmidt, WNT, 3:487-493). Deste modo os verdadeiros crentes são “participantes na vocação celestial” (3.1), “participantes de Cristo” (3-14), e “participantes do Espírito Santo” (6.4c). Bruce acrescenta: “Tem sido questionado se é possível que alguém—que tenha sido, em qualquer sentido real, um participante do Espírito Santo — cometa apostasia, mas nosso autor não tem nenhuma dúvida de que isto é possível... fizer agravo ao Espírito da graça’ (10.29)” (1990,146).
4) Aqueles que são descritos como os que “provaram a boa palavra de Deus e as virtudes do século futuro” (6.5). Note que o que é provado não é a Palavra de Deus em si, mas a sua bondade. Esta distinção é importante, desde que seja possível ler a Palavra de Deus “sinceramente, porém sem qualquer prazer ou apreço” (Guthrie, 1983,143). O único modo 4e experimentar a bondade da Palavra de Deus, porém, é pelo Espírito Santo. Ele também é a pessoa que capacita os crentes a experimentarem os poderes do mundo vindouro através de “sinais, e milagres, e várias maravilhas, e dons do Espírito Santo” (2.4), concedendo a cada um que participe no presente de um antegozo das bênçãos da salvação futura (9.11).
Assim, nestes quatro particípios aoristos descritivos listados um após o outro (6.4,5), o autor apresenta intencionalmente o peso da evidência acumulativa de que as pessoas descritas haviam testemunhado “o fato de que a salvação e a presença de Deus [em Cristo] eram as realidades inquestionáveis de suas vidas” (Lane, 1991,142).
“E se caírem é impossível (6.4a) outra vez renová-los para arrependimento” (6.6a). Embora os crentes em 6.4,5 sejam descritos como tendo experimentado um despertamento espiritual e se tornado participantes de Cristo, constituindo-se a habitação do Espírito Santo e tendo conhecido a bondade de Deus pela sua Palavra e poder, nosso autor agora apresenta a queda destes na fé como uma possibilidade real. A frase “e recaíram” (em inglês “se eles caírem”, NVI; também NKJV) não é uma oração condicional no grego (não há “se” em grego). Antes, a frase é um particípio aoristo (como nos versículos 4 e 5) e deve ser traduzida no tempo passado — literalmente, “recaíram” ou “tendo caído” (cf. ASV, NASB, NEB, NRSV, Williams). Desta maneira, nosso autor adverte: É impossível que aqueles que de modo premeditado e voluntário, cometem apostasia, depois de terem sido participantes de Cristo e do Espírito Santo, sejam “renovados para arrependimento”.
Então nosso autor acrescenta mais dois particípios (desta vez no tempo presente, com um sentido de continuidade) para descrever justamente o que seu lapso na fé significa e por que é impossível que sejam renovados para o arrependimento.
1) A impossibilidade existe porque “de novo crucificam o Filho de Deus” (6.6b). A impossibilidade de arrependimento aqui envolve mais do que lamentar pelo pecado passado; inclui uma mudança de pensamento ou atitude em relação a Cristo, como ocorreu inicialmente na conversão cristã. A seriedade da apostasia reside no fato de que ela “não é o resultado de uma decisão rápida em um momento de fraqueza, mas de um processo de endurecimento gradual dentro da mente que se cristalizou agora em uma ‘atitude constante de hostilidade a Cristo’” (Hawthorne, 1986,1516). Este fato é transmitido aqui pelo particípio do tempo presente. A linguagem referente a crucificar a Jesus Cristo novamente identifica a apostasia com o cinismo, a incredulidade e a malícia que o levaram originalmente à crucificação.
2) A frase “o expõem ao vitupério” (6.6c) sugere um repúdio e um desprezo vergonhosos a Cristo e “uma atitude de hostilidade incessante” (Guthrie, 1983,144). O fato de ambos particípios descrevendo o significado da apostasia estarem no tempo presente indica que “a ação de apostatar envolve uma postura contínua e obstinada em relação a Cristo... [que] os remove da única esfera onde o verdadeiro arrependimento e a reconciliação com Deus são possíveis” (Attridge, 1989,172) — isto é, no próprio Cristo. Deste modo, a sua queda ou apostasia é irremediável.
O estudioso F. F. Bruce observa corretamente (1990, 147-149) que o texto em 6.4-6 foi tanto “indevidamente minimizado” quanto “indevidamente exagerado”. Foi indevidamente minimizado por aqueles que argumentam de uma forma ou de outra que as pessoas descritas em 6.4, 5 nunca foram cristãos completamente regenerados (por exemplo, Grudem, 1995,133-182), ou que este foi somente um caso hipotético sendo apresentado pelo autor e não algo que pode realmente acontecer na prática (por exemplo, Hewitt, 1960,110-111). A passagem também foi indevidamente exagerada por aqueles que ensinam que uma vez que uma pessoa tenha se convertido e sido batizada em Cristo, e em seu corpo, e então por um lapso cair novamente em sua antiga vida pecaminosa, não poderá haver um perdão futuro ou uma restauração ao convívio cristão (por exemplo, Tertuliano sobre o pecado pós-batismal). Estas interpretações estão sendo aplicadas à passagem sem uma consideração de seu contexto, e não fazem nenhuma distinção entre “desviar-se” e “apostatar”.
O significado de 6.4-6 pode ser assim resumido:
1) O termo “recaíram” (v.6) não se refere a pecar de modo geral, mas especificamente a apostatar, e envolve negar a fé em Cristo após ter experimentado a sua graça e a sua salvação (freqüentemente abraçando qualquer outra religião, como por exemplo o judaísmo, o budismo, o ateísmo, etc.). Qualquer um que repudie “a salvação concedida por Cristo, não a achará em nenhum outro lugar” (Bruce. 1990,149).
2) Os dois particípios presentes no versículo 6 sugerem uma ação resistente que torna o arrependimento impossível. As Escrituras e a experiência semelhantemente indicam que é possível para homens de boa vontade tomar decisões, e chegarem a um estado de coração e vida, que não sejam mais capazes de responder a Deus com um verdadeiro arrependimento.
3) A passagem é uma advertência, não uma declaração de fato. Nem a comunidade endereçada, nem alguns de seus membros abandonaram sua fé em Cristo (6.9), embora a apostasia seja um perigo real para eles.
4) O propósito mais importante do autor é evidente em 6.9-20 (como ao longo de todo o livro de Hebreus) — isto é, encorajar seus leitores a permanecerem firmes na fé e a herdarem as promessas que estão em Cristo.

Fonte: J. Wesley Adams. Comentário Bíblico Pentecostal do Novo Testamento, pág. 1573-1576 – CPAD.

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